Sonho de uma tarde de Verão

A vida corria mansa. Casara há 3 anos com o grande amor da minha vida, morava no enfiamento da Praia das Avencas na Parede e o Pedro já andava e falava muito bem. Viver com a sogra não me tirava o sono, ajudou-me a criar os filhos, mas sempre me intimidaram aqueles saborosos manjares rigorosamente executados a partir dos livrinhos da Vaqueiro.  

E se até meados de 75 trabalhara como secretária tradutora na área da fotografia e como dactilógrafa na Arthur Andersen consultores, irrequieta como era, um dia respondi a um anúncio desafiante que me levaria até às areias do Ali Babá.

O ex-cônsul de Portugal em Baghdad,  de origem árabe, representante de várias grandes empresas portuguesas, interessadas em trabalhar com o Médio Oriente - abrira um escritório de exportações no meio de Lisboa e precisava de uma secretária bilingue com experiência de escritório. Entrei e passei a acumular com a função de Secretária da Associação de Amizade Portugal-Iraque . Eram os tempos do pós revolução. A língua de combate era o inglês.

Numa tarde desse Verão de 75  o convite caiu no meio do escritório ali mesmo num 2º andar alto da Praça da Figueira. Foi-me então comunicado, no mês de Setembro o escritório vai acompanhar um consórcio português que ganhou o Concurso  de Irrigação de Kirkuk no Norte do Iraque. Quer acompanhar- nos por 45 dias e faz também a Feira Internacional de Baghdad com a exposição da nossa oferta? Na altura exportávamos sisal, moldes, caixas para embalagem de tâmaras, cutelaria, ferragens, pasta de tomate etc.

Confusa pensei, o meu inglês afinal não é assim tão forte.  Mas era verdade, o convite estava feito. Primeira paragem Feira de Frankfurth para visitar a Feira dos Moldes e depois Beirute. O Líbano estava em guerra. Só depois iria estar na Feira de Baghdad. A viagem ao Médio Oriente terminaria no Kuwait. Não estava em mim. Mas a resposta foi dada em tom de culpa.- Sabe...sou casada, tenho um filho...e sou mulher, não caía bem lá em casa…E então os meus pais….. Obrigada mas não posso.

Joyce, mulher do patrão, mente aberta, mulher muito inteligente que tinha sido secretária dos Ingleses durante a II Guerra Mundial e que nas festas da Associação de Amizade usava invariavelmente o seu sari e uma longa boquilha, olhou-me como  quem pergunta, e depois?

Chegada a casa, arfante, contei o sonho. Calmo, o Jorge olhou-me e adiantou... que sorte,….disseste logo que sim, claro.  - Claro que não! Achas?

Olha se fosse eu, não pensava duas vezes. Amanhã chegas lá e dizes. Vou ao Médio Oriente, sim senhor! Milú, a gente cá se arranja.

Foi uma viagem de trabalho atípica. A recepção do Hotel Phoenicia em Beirute (a chamada Paris do Oriente) tinha explodido, pelo que nos passaram para o Hotel Jorge V. Durante a noite da janela alta via os rockets voarem da zona muçulmana para a zona cristã. Na manhã seguinte os jornais anunciavam 100 mortos. As sirenes do recolher obrigatório tocavam constantemente. Três dias... maior o espanto que o medo. Já em Baghdad, na Feira até tive direito a guarda costas e os termómetros passavam dos 50º C.

Eu vi os jardins suspensos de Babilónia. Eu vi o Grande Arco de Tessiphone. Eu vi o Tigre, o Eufrates e o Golfo Pérsico. Eu vi, juro.


Lurdes Alípio

22-01-2020


Comentários

  1. É verdade, os termómetros marcavam + de 50 graus celsius e eu a trabalhar na Feira Internacional de Bagdad.

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