Fantasilândia
Relato de uma viagem
Um dia o pai Jorginho decidiu oferecer aos nossos filhos, Pedro e Rui, uma viagem de sonho. Na altura ainda nem se falava na hipótese de termos na Europa uma Disneylândia como havia nos EUA em Orlando. Então comunicou-vos que iam à Fantasilândia que ficava na Alemanha perto de Colónia, numa cidade chamada Brühl.Na falta de, quer transporte próprio quer condutor, o pai ajeitou as coisas com o Zé João (Alves da Costa) seu amigo de longa data e que tinha dois filhos das vossas idades, uma menina e um rapaz.
Lá foram os seis num carro sem grandes luxos, mas com espaço. O tubo de escape fazia-se anunciar muito antes de chegarem a qualquer ponto do vosso longo itinerário já que tiveram que atravessar Portugal, Espanha, França, Bélgica, Holanda até entrarem na Alemanha.
Para memória futura aqui junto fotos da altura que encontrei no meio de tanta recordação documentada que o pai e vocês certamente criaram e que hoje me enche um pouco os meus dias.
Certamente terão lembranças desta ida à Fantasilândia as quais – com tempo – poderão para enriquecer este relato. Mas então porque é que a mãe não estava lá connosco. Vá lá perguntem! É que na altura eu trabalhava no Banco há pouco tempo pelo que era das últimas a marcar férias.
Mas nem sei como, lá consegui que me dessem uma semana de férias para ir encontrar-me convosco em Paris onde o Zé João ia visitar o pai e alojar-nos em Meudon La Forêt - penso que a uns 20 km de Paris – num prédio antigo de quatro andares plantado no meio de um pequeno Bosque, numa zona residencial e com pouco comércio. À noite estava tudo fechado.
E eu em Lisboa. Lá pensámos que para poupar uns trocos eu ia de comboio. Mas se eram para aí dois dias de viajem…. sozinha tinha medo. Lembrem-se que eu era recepcionista e segurança no Banco e passava a vida a ouvir falar de roubos, assaltos e eu sei lá mais quê.
Não sei como foi decidido mas a verdade é que o Cláudio seguiu viagem de comboio comigo pelo que devemos ter combinado revezar os sonos, não sei é se cumprimos. Lá fomos nós para Santa Apolónia e só parámos na Gare du Nord. Lá estavam à nossa espera! O Jorge, o Zé João e as respectivas proles. O Rui lembra-se que vieram de metro.
Fomos então para Meudon La Forêt. À entrada o Sr. Eng.º. apontou-nos, certamente com o queixo porque para ele era prática habitual, uns quantos pares de chinelos de tamanhos diversos. Não demos parte de fracos. Cada um escolheu um par do seu tamanho outros se calhar ficaram a chinelar, não me lembro. Só assim tínhamos passaporte para o grande salão – atelier!
Não consigo refazer de memória a disposição da casa mas lembro-me que o tal salão tinha mesas com tintas, pincéis, telas por terminar, telas mais adiantadas encostadas às paredes e grandes jarras com flores. Os franceses e as flores! Este atelier era também, num dos recantos, a sala de televisão. Foi-nos explicado que a mulher do Sr. Engº era pintora e estava em Itália nalguma exposição talvez. Ele, o Engº, já reformado, fizera carreira na Prospecção de Recursos Hídricos em África. Lembro-me que não havia fotografias da mulher em lado nenhum mas imaginava-a magra e bonita.
Na garagem parece que havia um carro que era uma bomba mas que não se usava para não se estragar. Talvez em ocasiões especiais o Sr. Eng.º perdesse a cabeça e lá saía por uma hora, digo eu! Como fazia o Sr. Atílio Branco na Alm. Nunes da Mata, lembram-se?
Chegara a hora de pensar onde ia dormir aquela malta toda. A casa para os que eram da casa como é de preceito, depois o casal e o Rui que era o mais novito. Faltava camas para o Pedro e para o Cláudio. Então o Jorginho lá marcou uma pensão para os dois pernoitarem porque de manhã, não muito cedo lá apareciam para o pequeno almoço.
Saíamos então para visitar Paris e voltávamos mais à tarde já com mantimentos para os jantares. Só se fazia uma refeição. Na cozinha o pai eu nas ajudas. Lá fazíamos uns pratos portugueses e tagarelávamos sobre o dia. Penso eu! Às vezes jogávamos às cartas.
Lembro-me que depois de lavar a loiça e do lixo tratado eu subia por uma escada lateral para um terraço ajardinado que ficava por cima do prédio de onde eu conseguia vislumbrar um postal fenomenal. Paris à noite e lá longe o topo da Torre Eiffel iluminado.
Eu ficava extasiada a olhar para a esquadria dos bairros e muito em especial a ambiência, as luzes de néon e umas pequenos flocos brancosq que pareciam caminhar entre os candeeiros. Estranho. Lembro-me mas não sei explicar … eram luzes que nos remetiam para o que ouvíramos falar da vida nocturna e boémia de Paris. Há dias encontrei ‘o postal’ que retrata exactamente o que eu vi do topo daquele prédio. Depois vos mostro!
Não almoçámos em bons restaurantes mas um dia o Jorginho quis levar toda a malta a uma dessas criossanteries muito chics em St.Honoré. Quando entrámos e vimos as empregadas de crista na cabeça e avental com rendas e percebemos que nos iam arruinar. Milú quando chegares a Lisboa metes mais um Crédito Individual!
Lá voltámos então para Lisboa, o carro do Zé João a bufar por todos os lados e as nossas crianças a rir da cara espantada dos automobilistas que pelo ronco esperavam uma grande bomba e saía-lhes um carro atulhado de gente e tubo de escape a precisar de oficina.
Lurdes Alípio
3/7/2021 (pelo aniversário do Pedro Jorge)
BELA PRENDA PATA TODOS.
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