O Pargo Legítimo

Faltava contar a história do pargo voador. Foi assim! O Avô Alípio trabalhava nos comboios, chamava-se então Sociedade Estoril. Tinha o trabalho mais mal pago da escala de ordenados. 

Dezenas de anos de trabalho do avô Alípio foram passado na estação do Cais do Sodré confinadinha com o Cais da Ribeira  onde o vosso bisavô Júlio, pai da avó Lurdes e do Vasquinho era Chefe do Armazém da Fruta.

Mas voltemos ao avô Alípio. Muito prestativo e dada a penúria desses tempos, de mão esticada à gorjeta, o Avô ajudava as peixeiras a por a canastra à cabeça, e se não havia gorja, aproveitava por vezes para regularizar as contas atirando com um pargo legítimo para trás das costas, sem que as mesmas dessem por isso e, a vida custa a todos, só um obrigadinho Sr. Alípio não pagava contas. Desculpem-me os leitores mas é mesmo assim, estamos num mundo gato, já que falamos de peixe. 

Bem mas voltando ao pargo legítimo – já que era ele a escolher, tirava o melhor – um dia no final do turno com saída à meia noite, o avô e um colega, cansados, lá voltavam de comboio para a família. Numa altura em que o comboio passava quase rentinho à água diz o colega fingindo acordar estremunhado: Oh Alípio tive agora um sonho que parecia realidade….então não é que eu vi um pargo a saltar dali do mar para a tua lancheira??? Quem conheceu o avô sabe que ele nunca se mostrava muito exuberante, era frugal na demonstração das emoções, mas penso que teve um único pensamento. O gajo viu mas eu não me desmancho...ah foi?! Às vezes acontece-me, é do cansaço.

O colega, que também não devia ser otário e sabia como se fazia, não pediu para verificar se por obra do Espírito Santo não seria mesmo verdade! Eu que sou crente, e tendo o avô tão boa intenção, tenho a certezinha que se o avô abrisse a lancheira o pargo legítimo já se teria esgueirado para alguma algibeira do fato azul de ganga do Avô Alípio!


Lurdes Alípio


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