O Naininaine
O Naininaine (99)
Torneiro mecânico de profissão o Naininaine era já um homem feito quando tudo isto aconteceu. Andava aí pelos quarenta e tal anos. O verdadeiro nome ficou lá atrás esquecido, subterrado pelas camadas de vida dura a trabalhar o aço nos estaleiros e a responder por Naininaine.
Magro e de estatura mediana, umas patilhas desenhadas em esquadria e um cuidado bigode preto, davam-lhe um ar distante, mas conta quem sabe que era um homem intenso de coração e de ideais como à frente se verá.
Bom pai de família, andava infernizado com a greve. Quatro semanas sem receber e sem se poder queixar – porque um homem ou é ou não é – e os bolsos a negarem-lhe os escudos. A conta na mercearia já passava de uma folha e crescia a olhos vistos mas o seu bom nome e a compreensão da merceeira avalizavam a dívida.
À hora do almoço, no estaleiro, mãos e rostos lavados, os trabalhadores lá se sentavam-se na cantina. Uma greve de 4 semanas roubara-lhes o sorriso mas não a determinação da causa. Tinham passado ao esgar da raiva surda dos injustiçados. Uma interrogação interior e aflita. Lá tenho que falar outra vez com os meus velhotes para esperarem um pouco mais... é que isto está mesmo para se resolver. Dizem eles...a ver vamos!
Filipe, nos seus vinte e tal anos, jovem nortenho, determinado e observador, como bom olheiro deu pela falta do Naininaine na hora do almoço. Que raio, falta o homem das patilhas... não sei o que se passa, anda amarfanhado, triste! Saber até sei, nestas greves longas há quem esteja a passar muito mal.
Era o fim do dia e alguém veio avisar que a Polícia Marítima estava nos portões com um mini autocarro escoltando as autoridades. O motivo? É de ver... a greve! Vinham tentar persuadir quem não era de ser persuadido.
Só o Oficial entrou sozinho no estaleiro...Acabem lá com isso...isto não leva a nada e a coisa vai ficar má para o vosso lado. Filipe chegara-se à frente com os mais velhos. A juventude, os ideais, a altura e os ombros largos ajudavam a dar-lhe uma confiança desafiante. Oh Sr. Oficial deixem-nos cá na nossa vida...porque olhe que a vossa bem pensada...também não é melhor, todos temos filhos, ninguém roubou nada...somos todos trabalhadores!
Eis que, passos largos e nervosos, o corpo magro, boné, fato de macaco cinzento coçado do uso e peklisse no bolso do lado esquerdo do peito, como que saído do nada se fez presente o Naininaine. Com a palma da mão calejada transformada em punho de aço amarfanhou a baínha das calças de ganga, e agitando-a, com voz emotiva mas sonora, olhando nos olhos o mensageiro da desgraça disse:
Olhe Sr. Oficial tenho lá em casa as minhas filhas a pedir pão, lápis e cadernos para irem à escola...percebe Sr. Oficial, é só o que pedimos, mais uns escudos para podermos governar a nossa vida.
Pararam todos, arrepiados com o que ali se passara, só o Oficial olhou sem emoção visível para o Naininaine e apontou com o queixo a saída, o destroçar.
Quer-me parecer que algumas verdades simples, ditas na hora certa, abrem no coração dos pequenos opressores, feridas antigas - ou quem sabe recentes - que lhes aviva a memória e que pelo menos por momentos os faz decidir ficar do lado certo da vida.
E depois? O aplauso mudo ocorreu sim senhor!!! Na troca dos olhares entre a malta. Mal fora que se pusessem a bater palmas. Ainda as autoridades voltavam para trás!!! O abanar de cabeça entre os trabalhadores dizia...vá lá adiámos a coisa! E lá voltaram para o fecho do dia e o Sr. Oficial talvez tenha dormido melhor nessa noite.
O nosso amigo Filipe Rua ainda hoje fica com os olhos líquidos quando lhe pedimos que nos volte a contar a história do Naininaine.
Lurdes Alípio
Arrepia sim senhor!
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