O Acidente

Dizia a notícia  “O grande acidente aconteceu às 16 horas e 7 minutos do dia 28 de maio de 1963, hora em que se registava um movimento normal na estação do Cais do Sodré, a cobertura dos alpendres das gares da Estação ruiu, soterrando mais de uma centena de pessoas, das quais 49 morreram e 69 ficaram feridas”.

Só me lembro que vinha a subir a Rua de Alvide penso que com a Luizinha e era um dia como outro qualquer. Já deveriam ser umas 6 ou 7 da tarde, devíamos vir do liceu porque eu tinha 15 anos feitos e a mana haveria de fazer os 13 em Setembro. Só tenho fracas visões de pessoas a passar e olhar para nós sem dizer nada ou a murmurar...coitadinhas, seria isso que diziam baixinho ? rostos fechados. Não demorou que se soubesse da tragédia porque na Rua de Alvide havia várias famílias que tinham os seus homens a trabalhar nos combois e o Tio Zé Mendes também lá trabalhava.

Na altura poucas pessoas tinham telefone mas a rádio e a televisão já tinham anunciado a catástrofe. Aquilo ficou-me a moer. Coitadinhas, foi isso que eu ouvi? Soubemos então que estava a correr a notícia que o Avô e a Avó tinham ficado debaixo da placa que ruíra. Nem uma beliscadura, mas eu que sou crente acredito que só por milagre não perdemos pai e mãe ou duas das melhores pessoas que conhecemos neste mundo.

A Olinda que era estafeta, antes das 16 horas tinha vindo entregar à gare, várias encomendas que encostou a um dos pilares que ruiu, pedindo ao avô Alípio que aí estava de serviço,  para dar um olhinho até ela ir à Rua dos Remolares, à Casa dos Passarinhos, para carregar nos braços e à cabeça as restantes encomendas, afinal como era hábito, e só pelo olhar e inclinar de cabeça o avô já sabia que tinha que tinha que cuidar não fosse aparecer algum amigo do alheio. 

O avô foi protagonista desta tragédia. Foi o mensageiro. Contava o Avô Alípio que estava na gare quando um colega lhe pediu que corresse urgentemente para a Estação e avisasse o Chefe da trepidação que estavam a sentir. Oh pernas, enquanto o colega carregador avisava as pessoas para fugirem – podia ter avisado e fugido, mas ficou lá– o avô entrou esbaforido no gabinete do Chefe da Estação mas não houve tempo para dar a má nova. O estrondo ensurdecedor e a poeira foram os mensageiros negros da desgraça. Mas quem ama cuida mais depressa do que é seu, é instintivo….mentalmente o avô veio-lhe à ideia a Avó Linda que tinha tido tempo de voltar e que podia estar debaixo dos destroços.

Desorientado correu por cima daquele inferno, rosto coberto de pó a chorar a sua Olinda. Mas o que não era para ser, não foi. Ela também o procurava. Num jornal – edição especial... via-se o avô por cima dos escombros, de braços abertos, bem no ar e o rosto era um borrão...mas cá para mim era ele, a mana confirmou,  à procura da sua Olinda. Podia não ser ele, mas foi o que quisemos ver. E se não foi...foi assim que certamente ele se sentiu... o horror da possível perda. Às 16 horas e 7 minutos do dia 28 de maio de 1963 a nossa vida podia ter mudado para sempre. Tenho a certeza que quando nos abraçamos os quatro à noite, soldámo-nos num só, nós talvez com mais choro de alegria que de medo. Não tínhamos a noção do que fora aquele inferno vivido na primeira pessoa.


Lurdes Alípio


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