Café de Bairro

 

Amanhã vai embora a Troika. Vamos comemorar? Ou isto vai descambar? Ando ceptica.

Gosto muito de vir ao café da ponta.  Aqui as pessoas são mais parecidas comigo. Vestem o que está passado e limpo (às vezes). As camisolas baratas apertam os estômagos proeminentes. Sem vergonhas, aí estão todas contentes a beber a sua biquinha. Lê-se o jornal do dia – O Correio – que em cima tem um escrito de posse.  Quem não cuida perde. No armário de escritório que serve de apoio , no centro do café,  escolho revistas já bastantes revisitadas e encontro uma Lux antiga. Olha pra este.......onde é que este amor já vai? Ou nunca veio.

Ontem estive no Café Gourmet. Onde o café até é mais barato. Está sempre vazio. É recente, é chic. Já ninguém em seu perfeito juizo muda de café por cinco cêntimos. Então de um café como este.  Aqui são todos primos, vizinhos de cima e elas não arranjam o cabelo. Chega a parecer que saem assim da cama e assim vêm ao café. Mas não é. É como ir à cozinha e encontrar lá a família a comer torradas daqueles feitas em cima do lume.

Ah … e as raspadinhas..... parecem crianças atarefadas a raspar a sorte. Só a raspar, a raspar de fazer doer o ar de desalento, a vergonha de andar a estoirar os euros...depois queixam-se que não têm dinheiro para comer e para a farmácia, murmura a que vai a sair.......e a sorte estava ali mesmo ao lado...ai foi por pouco. E chalhava bem, não calhava?

Ah... e as crianças?.... essas são as que têm mais sorte. Filho de pobre quando vai ao café com os adultos que se banqueteiam com grandes torradas e galões quentinhos, às vezes umas minis e uns rissóis  - olhe lá ….está a ouvir?....que traga camarão - ....ah filho de pobre têm muita sorte. Podem pedir o que quiserem. Para comer há sempre... e os meus filhos não são menos que os outros. Pode ser um leite com chocolate da Ucal e uma bola. Tá bem só desta vez, dê-me lá também um chupa.

Se os adultos se enchem, as crianças não são menos.

Logo passo cá para pagar. A minha senhora das 6ªs feiras paga-me hoje. É uma boa senhora. Dá-me muita roupa que já não precisa.

-E se precisasse, dava-lha?

-Isso já não sei! Ela é um bocadinho agarrada. Está cheia de dinheiro. Vende lotaria. Mas quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tonto ou não percebe nada da arte.

Já lhe saiu a ela um terceiro prémio, a sacrista. Dinheiro puxa dinheiro

Ainda há sopa? Hoje não me apetece fazer jantar.

Os pobres às vezes também podem ser preguiçosos e estragados porque às vezes é a única maneira de aguentar a sorte – ou a falta dela – .



Lurdes Alípio
16-05-2014
(Texto revisto para a aula de Escrita criativa)

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