Palco da Vida
Desafiada a participar no Projecto Palco da Vida, pensei para com os meus botões... eu até podia começar por vos dizer que nasci no dia 8 de Abril de 1948 filha de Francisco e Olinda, numa casinha de uma passagem de nível da CP ali para os lados do Estoril onde a minha tia Clotilde era Guarda de Linha sendo que nesse dia também foi parteira.
Dizia a minha mãe que chovia tanto que só um chapéu de chuva aberto evitou as pingueiras e que eu, mal chegada a este mundo, me constipasse. Mal fora...eu até podia ficar ressentida com tal desumanidade!!! Também podia acrescentar que fui baptizada na Igreja de São Domingos de Rana e que respondo, com muita honra, por Lurdes Alípio! A mana Luísa nasceu no ano de 1950 e ainda hoje caminhamos lado a lado! O meu pai queria dois rapazolas que partilhassem o seu amor pela terra mas saíram-lhe duas cachopas que também aprenderam a semear, regar, sachar e apanhar o nosso sustento. Não, não foi na aldeia, foi ali mesmo em Alvide por cima de Cascais. Bem mas isso não interessa nada.
Vamos lá à história do Francisco e da Olinda que se casaram pobres como JOB. Talheres? 2 garfos e 2 colheres! Tinham sido vizinhos para os lados de Ourém e andaram à escola, como dizia a minha mãe... descalços e no saco da merenda um naco de pão e uma cabeça de sardinha. Ao Chico morreu-lhe a mãe aos 6 anos e passou então a andar sempre de blusa preta anunciando ao mundo a sua perda. De tal forma foi que passou a ser conhecido pelo Chico da Blusa. Certamente que o negro devia reflectir-se muitas vezes no olhar e alguma lágrima furtiva comprovava a falta de colo.
Mas falemos então do namorico dos meus pais. Ele foi para a tropa e trocava cartas de amor com a Alzira, amiga da minha mãe, e claro quando vinha a casa namorava à janela. Acontece que a Alzira, tinha a 4ª classe, mas nunca fora muito dada às letras e aos números pelo que era a Olinda, quem, incógnita, lhe escrevia as cartas de amor com uma caligrafia de letra redonda, levemente inclinada à direita...e uma emotividade inexplicável. Tal foi a coisa que um dia o meu pai viu a Olinda – e não consta que soubesse que era ela a mensageira que lhe desassossegava o coração- e apaixonou-se. Largou então a pobre Alzira que certamente se arrependeu pela vida toda de não ter dado mais atenção às letras e aos números.
Consta também que casaram num fim de semana e quando o Chico da Blusa voltou ao quartel já tinha corrido a notícia de que ficara livre da tropa por ser amparo de família, já que a mulher era orfã.
Acontece que na altura se ia às sortes. Parece que era assim, cada magala colocava o seu nome num papelinho e depois de bem dobradinho – não fosse alguém espreitar - era colocado num bivaque. Misturam-se bem e permitia-se assim dar a um dos magalas uma sorte escolhida a dedo, ficando livre para ir arranjar a sua vidinha.
Ora adivinhem lá a quem saíu o papelinho premiado?
Clarinho como água...ao Chico da Blusa. É que um Ser Superior temeu que os senhores terrenos mas que mandavam na guerra, mudassem de humor, lhe virassem a sorte e assegurou-lhe duplamente o bilhete de volta a casa.
Tenho dito!
Lurdes Alípio
30-04-2021
Dava um filme, estas histórias de vida
ResponderEliminarEmocionada, como se meu filho fosses!
EliminarRaízes.
ResponderEliminarNuma palavra, TUDO!
EliminarEste escrito resulta do trabalho da querida amiga Ana Paula Reis. Obrigada!
ResponderEliminarVoltei a ler...que bela história de vida a vossa!
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