Os Pássaros

 Episódio de vida - Photokina

Os sábados ao fim da tarde em casa da Senhora Beckowick eram mesmo sábados. Não sei dizer de outra maneira. Era mesmo dia de festa, dia único.
 
Eu conto-vos a história do casal Beckowick, que tinha fugido de uma ilha do Mar do Norte e que nos alugava casa em Colónia na Alemanha, numa casa plantada num jardim, e que tinha um bunker.  Eu só acompanhei o Jorge, meu marido à Feira de Fotografia, duas vezes, o que significa que no máximo estive 3 ou 4 vezes no bunker.
 
O casal trabalhava numa Fábrica sem levantar os olhos do chão, jornas a fio e só terminavam na sexta ao fim do dia. Exaustos. No entanto não saíam de casa sem nos deixar a mesa posta com um termo de café muito aromático, um pequeno bule com creme de leite, presunto e fiambre enfeitados com tomate cherry, queijo e ainda pão estaladiço que iam buscar de manhã. 
 
Aos sábados, tudo ficava mais fácil para todos. Escorria cerveja por toda a casa. Os sentimentos eram mais líquidos, mais físicos, mais descongestionados. Tais emoções tornavam-nos por vezes sarnentos para quem queria aquela paz rotinada, a horas, sem estrilho. Ou não. Eram pessoas muito calmas e gostavam de nos agradar na nossa qualidade de hóspedes.
 
Mas sem os sábados o resto não se aguentava. Estou a falar do casal Beckowick. Trabalhavam muito na fábrica. Levantavam-se a horas desumanas e trabalhavam até cair. 
 
Já não eram novos. A pele era curtida mas tratada, mas as pregas grossas do rosto adivinhavam uma vida e que vida. Tinham um Bunker muito bem apetrechado de comidas e bebidas. Ficava numa subcave para onde se descia por uma escada muito íngreme. Aos sábados ao fim da tarde depois de dormir, convidavam-nos para o Bunker que se chamava “Bar do Jorge” … é verdade. Coincidência? Acredito nelas.
 
A Madame Beckovic tostava no forninho do Bunker umas sopas de cebola que acompanhávamos com uma bebida, e era a primeira a desistir, aproveitando para  se esgueirar apoiando-se nos degraus. Entendiamo-nos em inglês mas para o fim da noite já eu me aventurava a tentear o alemão. 
 
Mas afinal qual era a história dos Beckovic. Eles tinham vindo para Colónia escorraçados por pássaros. Tinham vivido alguns anos da agricultura numa ilha do Mar do Norte mas os constantes e graves ataques dos pássaros às suas explorações e animais fizeram-nos desistir e fugir para Colónia. Falavam exaustivamente desse infortúnio como quem nunca se livra de um desamor. Adoravam a terra, o cultivo e não perdoaram à vida ter-lhes tirado isso. Aos sábados conseguiam esquecer.
 
Lurdes Alípio
(Episódio - Feira da Fotografia e Cinema – Colónia - Alemanha 1976)
 
 
 
 
 
 

Comentários

  1. Bela narrativa - já o disse de viva voz. Em nova leitura, à luz dos tempos que vivemos na Europa e no Mundo, há detalhes que eram quase surreais para o leitor comum -tal como os bunkers - que infelizmente agora entendemos até bem demais. Parabéns, continua! P.

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