O Eduardito
Quatro anitos. Os pais haviam partido para França à procura de melhor vida que a terra pouco dava. Ficara com os avós e estes sempre de prontidão para ajudar os filhos. Para o que fosse preciso, mas lá que o Eduardito pouco trabalho dava também era verdade. Esperto como um raio. Muito observador e já muito desenrascado para a idade.
Os avós levantavam-se cedo para regar antes do nascer da aurora, mas nunca antes de matar o bicho já que as pernas já não eram como dantes e precisavam de uma ajudinha. Umas vezes o resto da ceia e um café da borra outras...sopas de cavalo cansado.
E lá iam para a fazenda regar. As novidades essas eram as primeiras a ser regadas não fossem elas enfezar à míngua de água.
Como eu dizia o Eduardito era observador e tendo acordado, não viu os avós... só o cão de guarda à porta. Na barriga um ratito obrigou-o a tomarmedidas quanto ao dejejum. De tanto olhar para os gesto dos avós, já sabia a receita das sopas de cavalo cansado de cor. Arrastou para a soleira da porta o alguidar de barro vidrado que aparava as pingueiras do barril e esticando o bracito como pode encontrou o açucar, o pão para fazer umas miguitas e uma colher que lhe ia dar muito jeito.
Sentou-se então no chão, alguidar entre as pernitas segurando a vazilha e cá vai disto que se estava a fazer tarde e a barriguita a dar sinal. Açucar o que calhou e umas boas miguitas de miolo de pão que a força do pulso não chegava para rasgar a côdea. Tudo bem mexido com a colher como fariam os avós e cá vai disto. Comeu até antes de se fartar porque lhe chegou uma moleza tal que ficou deitadinho e quase consoladinho, de braços abertos e os pézitos a rodear o seu alguidar de mata bicho.
Mas o cão de guarda não tinha estado a dormir na forma! Foi sondar, experimentou, olhou à volta e havendo só galináceos, nada que o apoquentasse, atreveu-se a medo... era boooom! E tal foi a coisa que começou a rodar sobre si mesmo perseguindo uma sombra imaginária. Corria atrás das galinhas, dos galos já desconfiados da macheza do bicho. Aquilo é que estava ali um cão de guarda...
Satisfeito, ficou a dormitar com um olho meio aberto. Chegou então a hora de quem tem toda a paciência do mundo, quer pela curiosidade quer pelo medo dum rosnar mais alterado. Assim atreveu-se a restante bicharada a debicar as miguitas de pão ensopada em vinho e lamberam-se. Deu-lhes então para a galhofa. Vai de correr, vai de esganiçar, vai de escorregar, os galos a darem a alvorada mesma antes da hora, era uma algazarra e penas voavam por todo o lado.
Ficou assim demonstrado cientificamente que os galináceos voam e voam alto quando bem ´tratados´. Eduardito dormia o sono dos justos... cá para mim até levitou. Ao nascer da aurora já toda a bicharada se esbardalhara naquele campo de batalha à volta do Eduardito. Nunca se vira tal coisa.
Susto, susto foi quando os avós cansados e suados encararam com o Eduardito, deitado, de braços abertos, pernas a abraçar o alguidar e a barafunda à sua volta. Ai o nosso Eduardito, ai o nosso menino... e de mãos na cabeça...olhavam, olhavam e gritavam.
Olhando a malga logo deslindaram tal mistério. Só o cão de guarda, no cumprimento do seu dever, mesmo tropego, veio lamber-lhes as mãos suadas do trabalho e do medo, como que em sinal de PAZ, como quem diz, nada de grave, eu é que apanhei uma grande cadela!
Lurdes Alípio
Episódio contado à mesa das Tertúlias por um grande contador de estórias.
ResponderEliminar😂😁 tão divertida, esta história! Que belas e alegres tertúlias devem ser essas😊❤
ResponderEliminarTenho tido retorno por telefone, mail e favebook. Vocês a imam qq um. Beijinho.
ResponderEliminarCorrijo: facebook e ANIMAM QQ UM. BEIJINHOS
ResponderEliminar